Brasília: encantadora e controversa

Brasília: encantadora e controversa

Recentemente estive em Brasília. A estada foi rápida, mas fiz questão de visitar os principais monumentos e pontos turísticos da cidade, onde estive a última vez há 15 anos.

Apesar de figurar na Constituição desde 1889, a mudança da capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central só teve início e, 1955, quando Juscelino Kubitschek, ainda candidato à Presidência da República, assumiu a construção da nova capital como principal meta do seu governo.

Eleito em 1956, Juscelino convocou o arquiteto (e seu amigo pessoal) Oscar Niemeyer para chefiar o que chamaria de Departamento de Urbanística e Arquitetura, encarregando-o de abrir um concurso para escolher o projeto da nova capital.

O vencedor do concurso, Lúcio Costa, afirmou que seu projeto “nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz”. Surgia assim o desenho definitivo de Brasília: o Plano Piloto.

Plano Piloto, Lúcio Costa, 1956.

A cidade foi dividida em quatro escalas: monumental, residencial, gregária e bucólica.

Oscar Niemeyer ficou responsável por projetar os prédios do governo, reunidos no chamado Eixo Monumental.

Dono de um traço leve, preciso e de uma inabalável liberdade plástica, Niemeyer nunca se deixou balizar pelos parâmetros estruturais. Seus enormes edifícios de concreto maciço passam a sensação de ritmo e leveza, como se pousassem suavemente no chão ou flutuassem sobre espelhos d´água.

Palácio do Itamaraty, Oscar Niemeyer.

Seu desenho é tão ousado e atual que causaria admiração no mais ferrenho arquiteto contemporâneo.

Catedral Metropolitana, Oscar Niemeyer.

Palácio do Planalto, Oscar Niemeyer.

Já o traçado da cidade abre precedente para discussões. Projetada e construída seguindo os preceitos da arquitetura moderna, Brasília é, ao mesmo tempo, encantadora e controversa.

Orientados pelas correntes funcionalista e construtivista, os planejadores urbanos se juntaram aos planejadores de tráfego para propor o que se denominou de urbanismo rodoviarista. O traçado clássico das ruas – com largas calçadas – deu lugar a grandes avenidas que se assemelham a autoestradas. As unidades de habitação foram condensadas em edifícios espalhados em grandes áreas verdes. As funções urbanas (moradia, trabalho, lazer e circulação) foram setorizadas. Todos esses elementos propunham novos modos de viver.

Grande avenida da escala residencial de Brasília. “Escalas de Brasília”. Joana França.

O que não se podia prever é que, em um curto período de tempo as ruas e as praças dariam lugar aos shoppings centers como locais de encontro. O uso intenso do automóvel reduziria o hábito de caminhar, estimularia a aquisição de mais automóveis e condicionaria a expansão horizontalizada da cidade. Esta expansão, por sua vez, incitaria cada vez mais o uso do transporte individual, tornando ineficiente o transporte coletivo e a distribuição dos serviços urbanos de água, esgoto e energia.

O modelo de urbanismo que atendeu a determinados requisitos de uma época, pretendendo criar uma cidade mais verde e mais saudável, acabou resultando em uma cidade com elevados gastos energéticos, consumidora de espaço natural, com fortes indícios de insustentabilidade, e que já não atende aos requisitos da urbanidade contemporânea.

Apesar disso, se analisarmos a escala residencial isoladamente, percebemos que houve uma intenção de privilegiar a escala humana. A ideia da unidade de vizinhança era concentrar, em um espaço alcançável pelo pedestre, a moradia, o comércio de primeira necessidade, a escola, a creche, o posto de saúde e as áreas de lazer e esporte. Nesse âmbito, o projeto conceitual da superquadra é o melhor registro urbanístico – guardadas as devidas proporções – produzidos a partir dos preceitos modernistas.

A cidade é considerada Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para Cultura, Ciência e Educação (UNESCO) e leva o título de maior área tombada do mundo.

Ariella de Paula
Arquiteta e Designer de Interiores

Contatos:

(16) 98141-2894
Instagram: @arquitetaariella

Fotos: Reprodução

No Comments

Leave a Comment